objetos sublimes

Há um tipo de objeto que não pode ser escrito senão através de uma convoluta, inumana poética. Exigem justiça e beleza sem par, de modo que mesmo o impulso de esboçá-los é proscrito: apenas a certeza a eles é permitida. Profundeza. Peso. Leveza. Graça. Inumeráveis são as suas qualidades. Não seriam possíveis sem o auxílio das mãos de um anjo. Exigem o repertório de vida dos imortais.

Seu brilho, contudo, pertence a este mundo, decididamente, ainda que esteja cercado de abismos por todas as partes. Existe para ser visto com os olhos, e escutado com os ouvidos. Não há uma única pessoa que não tenha, ao menos uma vez em toda a vida, tido a experiência de um (de que outro modo continuaria viva?). Se não se recorda, bem, este já é outro problema.

O objeto sublime não raro é o horizonte de quem escreve e a surpresa de quem lê. Descansa às margens das horas, em tempo subjuntivo. É a escrita das páginas em branco. É o cheiro do café. É o murmúrio da chuva, ou o balbuciar dos bebês. É o alvo, e também o desperdício.

objetos livres

Objetos livres não são meus, tampouco são de alguém. Não pertencem a ninguém, o que solicita ao leitor que seja realista quanto à sua existência. Isto, certamente, desloca o interesse de tais objetos da literatura para a ontologia. Exceto em outros mundos, intangíveis aos sentidos, o livro que escreverei não está em lugar algum, isto é, até que seja finalmente escrito.

A crença em objetos livres lança quem escreve numa busca. É menos artífice e mais explorador de cavernas. Desloca-se, ou reconhece esta necessidade (sem a qual não estará efetivamente fazendo coisa alguma), não para que crie, mas para que encontre.

Seja para o artífice ou para o explorador, o horizonte é uma imagem possível para encapsular as duas atitudes. Seja ao se deslocar em sua direção, ou ao efetivamente construir algo no território limítrofe da linguagem, a visada dos objetos ditos livres se torna possível, ainda que não por muito tempo. Nunca permanecem livres, tornam-se instantaneamente meus, ou alheios, o que levanta a dúvida quanto à sua liberdade original.

objetos compartilhados

A existência de objetos compartilhados desafia o leitor na medida em que estes podem ser peculiares somente à ficção, fora da qual o aparente compartilhamento se revela um projeto de fazer coincidirem pelo menos dois objetos em constante, e artificial, atualização. Operam como promessa e como ideal de unidade, ainda que se ignore a ameaça que estes representam aos objetos privados (i.e., ao meu objeto, ao objeto alheio etc.). Seu exemplo mais virtuoso é a utopia, a crença no compartilhamento em massa de objetos.

Escrever sobre objetos compartilhados requer que uma porção considerável de seu conteúdo permaneça propositadamente vaga, de modo a permitir que o leitor preencha sua estrutura semi-oca com seus próprios conteúdos. Tem sucesso o leitor que, ao menos momentaneamente, se permite iludir quanto à coerência, universalidade e, mais importante, antiguidade do falso objeto compartilhado que há pouco criou, ao mesmo tempo em que falha em perceber que, se tal objeto de fato existisse, deixaria ele, o próprio leitor, de existir.

Não se fala da experiência de leitura de um objeto compartilhado sem algum constrangimento. Este aparenta ser muito íntimo, verdadeiramente revelador das crenças do leitor em sua porção originalmente semi-oca, ao passo que seu complemento maciço, aquilo que o fisgou em primeiro lugar e que se perde em meio à porção posteriormente criada, consiste num conjunto de proposições que o leitor deve agora declarar publicamente como verdadeiras e como suas desde sempre, como se preexistissem à sua criação no momento da leitura.

objetos alheios

Meus objetos são, para os outros, objetos alheios. Nada garante que ninguém por eles se interesse. Há o cânone, a cultura, as mitologias de todos os tempos e, no mais das vezes, nem assim buscam-nos os buscadores de objetos. Que diferença fazem?

Um objeto alheio interessa quando criado por mãos mais hábeis que as minhas. Quando descrevem-no melhor, sua superfície, sua interioridade, seu entorno, melhor do que eu mesmo o faria, participo de algo, experimento um encontro. O melhor poeta, o melhor fenomenólogo, é sempre o outro. Sem este reconhecimento, contudo, estou à deriva.

O objeto alheio não pode ser somente a história privada do outro. Deve ser também a minha história, real ou imaginada, porém nunca tornado inerte, pois tenho dúvidas quanto a ele ser ou não ser animado. Ele é sagrado, tem poder sobre mim. O objeto alheio me preenche de temor.

meus objetos

Em algum momento disse para mim mesmo que não traria para a ficção qualquer coisa que devesse ser levada, antes, para o divã. Este também é um problema em camadas: após conhecer pesquisadores cujos objetos de estudo são eles próprios, suas pequenas histórias particulares, prometi tentar não fazer o mesmo, nem na academia, nem na ficção.

Tentar é a melhor palavra que encontro para reconhecer que isso nem sempre é uma tarefa trivial. Se é verdade que partir de algum lugar é preciso, também é verdade que não se parte senão daquilo que conhecemos. A solução menos convoluta que encontrei para este embaraço repousa em alguma variante da composição: compõe-se um terceiro conteúdo não familiar a partir de dois conteúdos familiares. Nada nesta manga. Nada nesta outra. Borram-se todos os nomes. Fim.

Quando se trata de não ficção, contudo, a imobilidade surge também das pretensões da escrita: a de ser, por um lado, ou perfeitamente panorâmico, passeando por tudo sem qualquer aprofundamento, ou profundo à náusea, sacrificando tudo em nome da exaustividade monográfica, pelo outro. Não descartarei essa velha ideia de Eco, mas talvez seja possível um meio termo, e escrever sobre algo sem grande pretensão. Uma pequena ideia, num pequeno texto, exprimindo um modo de ver, muito possivelmente passageiro, de um objeto.

muitos objetos

Há sempre uma procissão de objetos em jogo, demandas de uma escrita útil correndo paralelamente à escrita inútil. Um amigo aguarda até hoje por uma pequena ficção sobre uma distopia futura que lhe ocorreu. A cada reinício, tento desenhar um sistema de escrita, um princípio simples que seja capaz de conter a complexidade de múltiplos objetos. Um sistema assim sempre surge com promessas de elegância e logo degenera. Nunca alcancei um método que articula muitos objetos sem esforço.

O contorno de um objeto ocorreu há pouco. A ideia vem fácil, singular, mas qualquer coisa além dela imobiliza. É possível que a tarefa esteja mal entendida. Talvez seja o caso de que um objeto se opõe não a muitos, diretamente, mas sim a dois, e dois a três, e três a quatro etc., degrau por degrau, como a crescente complexidade do contraponto. Não me recordo de ter escutado as ideias de Joyce Carol Oates a esse respeito, mas o trabalho constante sobre um diário pode trazer novas perspectivas.

Pequenos passos similares podem ser feitos a respeito de outras formas de escrita. Recentemente, desejei escrever uma pequena série de textos curtos sobre temas diversos, pequenas ficções ou pequenos comentários, mas sempre nesta perspectiva do pequeno fôlego das páginas do diário. O medo de que este seja mais um retorno compulsivo à promessa de um método que não existe (não existe para mim), entretanto, é cotidiano. Sua contraparte que existe (que existe para mim), infelizmente, é semelhante a uma resistência. Ela serve para silenciar a escrita.

um objeto

Recentemente escutei uma fala de Joyce Carol Oates, na qual ela recomenda que mantenha um diário toda pessoa que deseja escrever. Antes de dormir, algumas linhas sobre o dia seriam exercício suficiente. Recomenda que algumas falas sejam adicionadas, e só. O diário é, para quem escreve, como o caderno de esboços de quem desenha, uma coleção de fragmentos pedestres, cujo objeto importa menos que a constância de abrir e deixar ali um pouco de algo. Se a escrita for feita do próprio punho, tanto melhor.

A fala de Oates me moveu em camadas, pois há muito tempo não sei o que é olhar uma página e escrever apenas por escrever. Um diário é um álbum íntimo de fragmentos, e não deveria interessar a ninguém. Nisto ele é diferente do livro de esboços, que não raro também é publicado. Tenho escrito artigos, ensaios, resultados de pesquisas, casos clínicos, rascunhos para histórias que não prestam ainda para serem lidos (talvez nunca prestem). A fala de Oates me moveu por essa autorização a escrever sem a pressão de escrever algo relevante ou bem acabado. É uma escrita, de certo modo, inútil.

Sobre o que quero escrever quando não escrevo útil é uma pergunta difícil de responder. Tampouco está claro se é caso de querer, poder ou saber. Além de um objeto, quando escrevo útil há um objetivo de partida, ainda que seja apenas explorar. Escrever inútil parece ser menos sobre o objeto e mais sobre se permitir errar, em todos os sentidos. Errando se chega sempre em algum lugar. Não estou convencido, porém, de que seja possível escrever sem chegar, a qualquer tempo, num objeto.