Há um tipo de objeto que não pode ser escrito senão através de uma convoluta, inumana poética. Exigem justiça e beleza sem par, de modo que mesmo o impulso de esboçá-los é proscrito: apenas a certeza a eles é permitida. Profundeza. Peso. Leveza. Graça. Inumeráveis são as suas qualidades. Não seriam possíveis sem o auxílio das mãos de um anjo. Exigem o repertório de vida dos imortais.
Seu brilho, contudo, pertence a este mundo, decididamente, ainda que esteja cercado de abismos por todas as partes. Existe para ser visto com os olhos, e escutado com os ouvidos. Não há uma única pessoa que não tenha, ao menos uma vez em toda a vida, tido a experiência de um (de que outro modo continuaria viva?). Se não se recorda, bem, este já é outro problema.
O objeto sublime não raro é o horizonte de quem escreve e a surpresa de quem lê. Descansa às margens das horas, em tempo subjuntivo. É a escrita das páginas em branco. É o cheiro do café. É o murmúrio da chuva, ou o balbuciar dos bebês. É o alvo, e também o desperdício.